Este blog é um esforço civilizatório pelo bom gosto.

sábado, 15 de maio de 2010

Moda - Ralph Lauren

RL Spring-Summer 2010
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Black Label
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Purple Label



Mas fica a pergunta: gravata com bermuda?

Fotografia e arte

Creative NERDS

domingo, 2 de maio de 2010

Alice ou (please) off with Tim Burton's head


Talvez se trate de um padrão. O segundo filme em 3-D que fui ver foi revoltantemente ruim – o primeiro foi Avatar. Mas esse pelo menos era só uma mistura insalubre de Star Wars com Pocahontas pintado de azul.


Nessa última noite de sábado deixei de lado uma proposta interessante e fui assistir a Alice no País das Maravilhas com alguns amigos. (São estes, aliás, que sempre salvam a noite.) R$13 de meia entrada para usar óculos 3-D que, no final, seriam devolvidos.


A proposta do filme, apesar do título, é fazer uma continuação da história do clássico de Lewis Carroll, com Alice debutando na fase adulta – algo como Alice no País das Maravilhas 2, o Retorno. Nesse filme, Alice se vê forçada a se casar com um Lord sem graça quando, de repente, o tal coelho a atrai novamente para o buraco que a leva para Wonderland. Eis que, do nada, o desenrolar da ““trama”” começa a se afastar da do livro, até que fica claro que realmente não se trata da história original adaptada para o cinema – o que, em si, já é uma imensa frustração.


Mas não apenas; o filme se esforça para ser ruim, massante, clichê, enfadonho e todos os demais eufemismos para “um saco” que possa existir. O filme não tem pé nem cabeça – o que, infelizmente, não reflete o nonsense da obra de Carroll, mas se deve apenas à completa falta de imaginação do enredo. O roteiro é previsível, batido: a personagem principal é uma jovem inocente que se vê destinada a salvar o mundo e, claro, tem grande êxito após uma chatíssima batalha final. Some-se a isso o figurino apenas correto e as péssimas atuações –nem mesmo Johnny Depp, como Chapeleiro Maluco, faz mais que decorar suas falas.


É revoltante a habilidade da produção do filme de transformar uma história como Alice no País das Maravilhas em algo tão ruim. Talvez ganhe um Oscar no ano que vem.



quinta-feira, 1 de abril de 2010

O Moldava ou Um Quadro-Poema em Música

Escultura de Bedřich Smetana na beira do rio Moldava

Em um curso de música, o professor mostrou uma peça do poema sinfônico Má Vlast (Minha Pátria), do compositor tcheco Bedřich Smetana. A obra é hino ao país de Smetana, daí o lugar de destaque que sua escultura ocupa em Praga.

O Moldava (Vladava, em tcheco; mas o nome em português parece uma corruptela do alemão, die Moldau) é o rio que corta a capital da República Tcheca. Não atoa, foi destacado na obra do compositor e é o movimento mais conhecido.

A peça inicia-se com duas flautas, que indicam o correr das águas de dois afluentes do rio. Ao se unirem, o Moldava ganha corpo, e as cordas da orquestra se unem ao sopro. A melodia lembra a fluidez calma de um volumoso rio. Pouco depois (por volta de 2min30), o tema muda, e percebe-se variações no curso do rio; a música se intensifica e mostra rugosidades, aumenta e diminui sua intensidade. Com um mapa do rio, talvez seja possível identificar similitudes da peça com curvas e obstáculos fluviais naturais.
Por volta de 3min40, o tema muda novamente. Segundo o professor, aqui entra em destaque ritmos de polca, que representam celebrações campesinas, talvez, de um casamento. O enfoque da melodia muda: no começo, o espectador (ouvinte) contemplava o rio; agora, contempla-se a paisagem tcheca banhada pelas águas do Moldava. Pouco depois, em 5min, o tema muda novamente. É uma espécie de cena fantástica, onírica, que, novamente, mostra o ambiente tranquilo do qual o rio faz parte.
Em 7min20, volta-se o tema principal e a atenção à corrente do rio. A fluidez arrasta o ouvinte-espectador de forma confortável... até que os metais entram em cena (8min10) e aumentam a vibração da peça. Entra-se em momento de gravidade, de preocupação. São as corredeiras e as quedas d'águas - imagine um barquinho sendo arrastado, se debatendo entre as margens do rio e as pedras e árvores no leito.
Vitorioso (9min20), o barco supera os obstáculos naturais, e o tema do Moldava ganha variações que parecem querer demonstrar a glória do povo tcheco representada pelo rio. A partir de 10min33, as cordas, suaves e silenciosas, ilustram o rio se perdendo de vista. O observador-ouvinte fica observando o lento curso do rio, que, a seus olhos, não tem fim.

Indico a versão regida por Toscanini (embora prefira a de Kubelik): http://www.youtube.com/watch?v=49WNphaiwNY

quinta-feira, 25 de março de 2010

Um Sonho Possível - Oscar 2010


O único motivo que me levou a ir ao cinema para assistir Um Sonho Possível foi o Oscar de Melhor Atriz ganho por Sandra Bullock por esse filme. Queria constatar, o que eu já previa, que a atriz ganhou o prêmio apenas por altruísmo da Academia e não por merecimento.

Sandra Bullock interpreta a perua, Leigh Anne Tuohy, que tem um marido rico e uma vida cercada de futilidades. Em um dia chuvoso e frio, ela reconhece na rua um colega de escola de seus filhos, o jovem Michael Oher (o ator Quinton Aaron de “Rebobine, por favor”), que vagava pela chuva sem ter onde dormir. Leigh Anne é tomada por um sentimento de caridade e resolver levar Michael para morar em sua casa, sem muitos questionamentos de seu marido e de seus filhos (simples assim). A mãe de Michael é viciada em crack e mora no subúrbio violento de Memphis e seu pai se matou pulando de um viaduto. Por ser alto e gordo, Michael ganhou uma bolsa de estudos num colégio de ricos para jogar futebol americano, apesar de ser um analfabeto funcional. Como consequência do incentivo dado pela nova família, Michael se torna um grande jogador de futebol americano, apesar de todas as adversidades.

O diretor e roteirista John Lee Hancock demorou 2 horas e meia para contar essa história bonitinha e superficial e ainda teve a sorte de ser indicado para o Oscar de melhor filme. Um Sonho Possível é chato e demorado, o diretor se esforça para contar uma história emocionante e não explora conflitos essenciais da vida real do jogador Michael Orne, como o preconceito racial numa escola privada do Tennesse. Definitivamente esse foi o pior filme de 2009 que eu vi. Nem as animações da Disney e Pixar estão seguindo atualmente esse roteiro água-com-açucar trabalhado por Hancock.

A atuação da Sandra Bullock não foi nada diferente do que ela fez em 20 anos de profissão. Ela apela para estereótipos na composição dos seus personagens o que sempre torna seus filmes uma comédia-romântica boba, por mais dramática que seja a história. Ela não tem a mínima capacidade de importar características psicológicas e agregá-las aos seus personagens, por isso usa sua própria personalidade para construí-los. De todas as atrizes que concorreu ao Oscar ela foi a pior. Seu prêmio não passou de uma honraria artística dada pela sua popularidade e carisma com o público.

Não vale a pena ir ao cinema para vê-lo. Espere que o filme passe na sessão da tarde.

terça-feira, 9 de março de 2010

A modernidade na contemporaneidade: Malfatti vs Pandolfo




Eu fui apresentado à arte dos irmãos Otavio e Gustavo Pandolfo, conhecidos artisticamente como Os Gemeos, há uns 2 anos pela minha amiga e especialista em Cultura e Arte Urbana Marilia Zoboli. Naquele momento, os irmãos Pandolfo estavam sendo reconhecidos como um dos maiores representantes mundiais da arte do grafite e inauguravam o grande painel que revestiu a fachada da Tate Modern em Londres durante o verão de 2008.

Agora o Centro Cultural Banco do Brasil traz a Brasília a exposição Vertigem, de curadoria dos próprios gêmeos, que fazem questão de salientar que a exposição não é grafite, porque o grafite está na rua, não em galerias. O que eles pretendem apresentar é arte contemporânea.

Apesar dessa limitação conceitual, a exposição é um pequeno resumo do trabalho dos grafiteiros. Tem um grande painel em grafite com todos os elementos que caracterizam sua obra: cor amarela, bandeirinhas juninas, lirismo, romantismo, imagens familiares e ironia política.

A exposição abusa de instalações, cores, luzes, texturas, móbiles, obras interativas. Os Gêmeos fizeram de sua exposição um grande parque de diversões, o que se torna uma oportunidade para introduzir os mais novos na arte contemporânea. Para mim, o grande destaque foi o uso de texturas nos grafites e esculturas, é possível encontrar pena de pavão, lata de óleo, madeira, vidro, purpurina, entre outros materiais que oscilam do reciclado ao luxuoso.




Paralelamente, está em exposição no CCBB a exposição Anita Malfatti – 120 anos de nascimento. É um ótimo exercício artístico comparar a obra d´Os Gemeos com o trabalho de uma das fundadoras do movimento modernista no Brasil. Perto da arte urbana dos Pandolfo, a obra da Malfatti se torna quase neoclássica. Fica evidente que a arte moderna foi o início de um caminho que culminou na arte contemporânea. Malfatti ousou nas cores mais fortes, na ousadia das formas, na incongruência entre representação e realidade, no uso de novos materiais e plataformas, todas características presentes nos gêmeos. O mais interessante é a presença das bandeiras juninas típicas de Alfredo Volpi nos dois trabalhos. O mesmo elemento foi usado com objetivos distintos, enquanto Malfatti queria descobrir o Brasil rural com suas festividades e mitos, os Pandolfo usam o lirismo das festas tradicionais para destoar do caos urbano.

Importante comentar que Vertigem é resultado de uma curadoria profissional, acostumada com a tradição dos grandes centros culturais mundiais de atrair público, inclusive com objetivos comerciais. A exposição de Anita Malfatti mostra o amadorismo ainda presente na produção cultural nacional. Há um excesso de quadros, sem o devido suporte didático, a exposição não é pedagógica e nem auto-explicativa, o que a torna cansativa e chata e afugenta o público, que perde a chance de conhecer um símbolo da vanguarda feminista do modernismo brasileiro.

Serviço:

Anita Malfatti – 120 anos de nascimento

Data: De 23 de fevereiro a 25 de abril

Os Gêmeos – Vertigem

Data: De 02 de março a 16 de maio

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fado Tropical ou Raízes do Brasil


Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil

Te deixo consternado

No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata

Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dosagem de lirismo (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...”

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa

Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do alentejo
De quem numa bravata
Arrebata um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

“Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa”

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes

Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas

Que corre trás-os-montes
E numa pororoca

Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal

Ainda vai tornar-se um império colonial

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial


Essa música, composição de Chico Buarque e Ruy Guerra para o musical “Calabar – O elogio da traição”, é uma das maiores obras da poesia musicada brasileira que eu conheço. Foi escrita entre 1972 e 1973, sob censura do regime militar. A história por trás do musical é bastante interessante, mas Fado Tropical, por si só, é um fenômeno.

A música fala claramente do Brasil, sobre o lirismo, a DST e o estilo musical que herdamos de Portugal. De cara percebe-se uma divisão na canção, com duas vozes diferentes cantando coisas diferentes. De um lado, um cantor (versos em itálico) coloca em palavras as características e as belezas de uma terra semelhante a Portugal (ou seria o próprio Portugal transplantado?). De outro lado, um narrador (versos entre aspas), herdeiro do sangue português, declama desabafos e justifica a crueldade de seus atos.

[Permitam-me uma conjectura tosca: estaria o primeiro (o cantor) ecoando as Raízes do Brasil, do pai do Chico Buarque? Ou talvez o segundo estivesse dialogando com Sérgio Buarque, ao descrever sua herança de “homem cordial”? Fato é que Fado Tropical mostra a ligação intrínseca do povo brasileiro com suas raízes portuguesas, raízes essas presentes e que fundamentam ainda hoje as relações entre Brasil, Portugal e PALOP.]

O segundo, o narrador, é a grande estrela da música. Seu poema difere do primeiro: é mais impressionista, lírico, íntimo, mais dramático. Não canta suas estrofes, apenas declama-as. Ao mesmo tempo que desabafa a desumanidade seus atos, busca justificar-se, salvar-se em sua sensibilidade e... bondade? Ele não consegue equilibrar sentimentos e atitudes (ou seria dever?). Ele age como que por impulso, por ordem superior, ou por inércia. O fado se aprofunda quando ele fala, puxa o ouvinte para o fundo do poço de culpa e remorso que ele sente.
Por duas vezes, ele fala ao público. Na primeira se apresenta, se mostra. Na segunda, com versos em forma de soneto, aprofunda o conhecimento de seu estado dicotômico: “Se trago as mãos distantes do meu peito / É que há distância entre intenção e gesto”. Esse estado, entre o sensível e o desumano, imita a própria clivagem da música: de um lado, bela e descritiva; de outro, angustiada e introspectiva.

O narrador se esconde entre os versos do cantor. Aparece e se esconde atrás das descrições e da canção. Quando reaparece, é para tomar ar e falar, para então novamente mergulhar na sua bravura de homem cordial e cruel. Note como, enquanto ele fala, o violão vai perdendo espaço para o violino. O som do violino some quando o cantor volta. É instrumento exclusivo da angústia do narrador – esse herdeiro lusitano cheio de lirismo e... sífilis?

Um primor.

Apesar da tosquíssima seleção de imagens, a versão da música que mais me agrada é esta: http://www.youtube.com/watch?v=VHQFmBrjLCM
(Veja que a palavra “sífilis” foi suprimida da música; ordem da censura.)

(…) O maior fardo do País é sua herança ou o destino previsto pelo cantor?