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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

De La Musique ou Introduzindo Villa Neste Blog

Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente.
Sobre o espaço, sonhadora e bela!
Surge no infinito a lua docemente,
Enfeitando a tarde, qual meiga donzela
Que se apresta e a linda sonhadoramente,
Em anseios d'alma para ficar bela
Grita ao céu e a terra toda a natureza!
Cala a passarada aos seus tristes queixumes
E reflete o mar toda a sua riqueza...
Suave a luz da lua desperta agora
A cruel saudade que ri e chora!
Tarde uma nuvem rósea lenta e transparente
Sobre o espaço, sonhadora e bela!


Resolvi deixar a gastronomia (brevemente) de lado e assumir o posto que me coube originalmente neste blog: música. Começarei por algo fácil, Villa-Lobos e a Cantinela da Bachiana n° 5.
Fácil porque a peça é famosa e de simples assimilação. Ainda que não se goste desse gênero musical, percebe-se sem dificuldade a riqueza da obra. Lembro que entendo apenas de opinar; não poderei esclarecer essa riqueza.


Evoco Alberto Caeiro no intento de falar sobre essa peça. Ela é daquelas músicas que, no momento e no lugar certos, deve-se apenas sentir. Pelo arranjo e pelo destaque da voz da soprano, a ária chama atenção de forma irresistível. Mas é ao sentar e ao focar atenção nela que sua estética se mostra e atrai o ouvinte. Repare como a melodia tende a te puxar pela mão. A voz da soprano parece querer revelar alguma confidência, algum segredo, alguma desilusão talvez. É a preparação, durante os primeiros minutos, para o poema. A voz passa então a explicitar suas sensações. De forma lírica, a cantora pinta seu mundo ao entardecer. As cordas acompanham-na desenhando os contornos dos versos. Ao final, ela faz conhecer a origem de seu tormento. Mas apenas brevemente. A soprano repete a descrição inicial do entardecer, como se seu sofrimento fosse mero detalhe em dia tão bonito. O cantarolar seguinte, contudo, não deixa dúvida de que a beleza do dia está maculada pela tristeza, pela falta. O cantarolar representa seu desconsolo e suas lágrimas.

Goste-se ou não, a ária possui indiscutível beleza. A mescla de poema com música é fascinante. Apenas um gigante musical como Villa-Lobos para fazê-la tão bem.

Há duas versões dessa cantinela que me agradam mais, embora por motivos opostos.

A primeira destaca as cordas, entre as quais o violoncelo tem papel central. São versões com a soprano Ana Maria Martinez e a com Barbara Hendricks (esta pecando um pouco no português). São, respectivamente, os seguintes links: http://www.youtube.com/watch?v=sAeiynnsw-M e http://www.youtube.com/watch?v=_06B1SQjRRQ.

A segunda destaca a voz mais melodiosa e delicada da cantora mezzo-soprano Salli Terri - ao que parece, a preferida de Villa-Lobos para cantar essa ária. Peca-se, contudo, com a substituição do violoncelo pelo violão, o qual perde espaço na música e parece apenas seguir a cantora, ao invés de ser cúmplice na ambientação, como faz o violoncelo. Ainda assim, prefiro esta versão. Eis o link: http://www.youtube.com/watch?v=gejY9FQlDGM.

(...) Pela capacidade que tem de tocar, modificar e mover o ser-humano, a música é certamente a maior das artes.